"Moramos em uma boa casa que fica somente 10 minutos ao norte de Copenhagen, uma vizinhaça confortável e com muitas famílias. Oferecemos um quarto próprio de 14m2, com cama de casal, walk in closet, tv, dvd, aparelho de som e internet wireless..."
...e foi mais ou menos que tudo isso começou um ano atrás. O primeiro contato, aquela imagem de uma linda família, esperando ansiosamente a hora da sua chegada, com uma grande casa de portas abertas para te abrigar e quem sabe aquela linda mesa de jantar, praticamente um banquete para comemorar a mais nova parte desta família Dinamarquesa.
Estaria sendo mentirosa falando que isto é a total realidade da minha vida no momento, mas também estaria sendo mentirosa falando o oposto. Bom, vamos começar a escrever isso de verdade.
Daqui a dois dias estarei comemorando nove meses de Dinamarca; tempo suficiente para que ocorra a fecundação, toda a gestação até o momento do parto. A fase mais rápida de crescimento e desenvolvimento do ser humano (e se não for, ignorem isso, admito que colei muito na escola; ahh, e também garanto que não estou grávida, e só estava tentando dar uma de esperta).
Estes nove meses também marcam a metade da minha estadia como au pair na Dinamarca.
Não é minha intenção usar este blog como um tipo de "querido diário", tanto que não tenho feito algo do tipo. Tampouco tenho a intenção de que muitos leiam o que escrevo por aqui (mas agradeço aos que tem me acompanhado ou pelo menos gastado um pouco de tempo com um ou outro post). Hoje escrevo com um pouco mais de emoção do que os posts anteriores. Não escrevo sobre a Dinamarca, mas sobre o que a Dinamarca tem feito por mim. São resultados, idéias e talvez até reclamações das experiências vividas nestes últimos nove meses.
Como é que uma pessoa pode mudar sua vida de uma forma tão drástica sem necessáriamente ter feito nada a você, ou nada direcionado a você ou intencionalmente a você? Esta afirmação é uma das coisas que eu mais agradeço neste momento. Primeiro por algumas pessoas terem entrado na minha vida, segundo por eu ter dado a oportunidade a mim mesma de conhece-lás e terceiro por estar no lugar certo na hora certa.
Percebi que este assunto de pessoas mudando a vida alheia é bem extensa, portanto vou parar pelos agradecimentos e por ter reconhecido isto.
Mal agradecida. Todas as crianças são mal agradecidas, muitos adolescentes também e pior de tudo, vários adultos também se encontram nesta situação. Talvez faça parte da nossa natureza, ou a rotina nos faz cair em tal ato, seja lá o que for, quero agradecer minha mãe, tias, avós, tiazinha da limpeza, professores, o MUNDO TODO por tantas coisas que tantas pessoas já fizeram por mim. Não é aquele presente no natal ou minha comida preferida no meu aniversário, estes tenho certeza que agradeci no momento. Mas é por cada peça de roupa lavada, tempo passado no trânsito para chegar até a escola (e dar aula para alunos que não estão afim de aprender), pelo lanchinho das tardes, aquele lençol cheiroso, a ração que deram ao cachorro e ainda pior, o cocô recolhido (quando o acordo era que "se você quer cachorro vai ter que cuidar dele") e todas tantas, MILHARES, BILHARES, INFINITAS coisas que fizeram por mim, coisas do dia dia, de rotina, de sempre, aquelas coisinhas que passam despercebidas.
OBRIGADA.
Tak; Tak skal du have; Tusind tak; Mange tak; Se os Dinamarqueses agradecem muito, não tenho certeza, mas que eles tem várias formas de agradecer isso é certeza!
A realidade é que vim para a Europa para limpar casa, lavar roupa e cuidar de criança. E precisava falar isso para que as pessoas não se enganem da vida glamurosa que tenho por aqui (sabe que eu nunca achei que usaria a palavra glamurosa, tanto que tive que usar o google para escreve-lá corretamente). Mas também tenho que dizer que não estou reclamando. E o melhor de tudo isso, é que é passageiro, com contrato com data de término e consigo ver de pertinho os erros dos outros para eu tentar não fazer o mesmo quando chegar minha hora e minha família.
Percebi como é difícil aprender uma língua nova, apesar de já ter feito isso antes as coisas mudam quando você não tem mais 11 anos e não passa 20 horas por dia na escola (ok, exageiro, eram somente 18 horas?!). MAS não tenho dó de ninguém que está estudando uma nova língua e está tendo dificuldades (pelo menos não dos jovens). 75% da população Dinamarquesa fala Inglês. Esses 25% que não falam são os que tem mais de 50 anos. E sabe o que, aprender Inglês foi uma das coisas mais importantes que fiz na minha vida, e sabe mais o que, esta também é uma das línguas mais fáceis do mundo. Get over it, and learn it.
Fui a Alemanha, ai depois fui para a Inglaterra e algumas vezes para a Suécia. Conheci Italianas, Espanholas, Francesas, Norueguesas, Portuguesas, Russas, Australianas, a lista continua (ah sim conheci homens também dessas nacionalidades, mas det lige meget).
Esta troca cultural é provavelmente o que eu mais amo entre todas as experiências que tenho tido por aqui. E não estou (somente) falando de brincar de WAR.
O que eles comem, o que eles gostam de fazer, o que é estranho, o que é comum, o que usam, como é o relacionamento entre eles. E cada país, pequeno, grande, conhecido ou totalmente desconhecido, todos encaixadinhos na Europa e cada um com uma cultura completamente diferente da outra.
Como pode existir tanta diferença? Mas que bom que ela existe!
Isto também se torna um tapa na minha cara cara, não necessariamente para doer, mas para me acordar. E o meu país? Gigante comparado a tantos por aqui. E se eu aprendi direito a fazer contas de dividir, dentro da área do Brasil cabem 197 Dinamarcas.
Percebi que não sei valorizar meu país, mas que dei valor a isso e estou pronta para aprender conhece-lo melhor, um dia, quando eu voltar. Ainda assim não espere que eu aprenda a sambar, ainda mais porque o Brasil não é só feito de carnaval, e está mais do que na hora que o resto do mundo fique sabendo disso também!
Percebi que não sei valorizar meu país, mas que dei valor a isso e estou pronta para aprender conhece-lo melhor, um dia, quando eu voltar. Ainda assim não espere que eu aprenda a sambar, ainda mais porque o Brasil não é só feito de carnaval, e está mais do que na hora que o resto do mundo fique sabendo disso também!
Para não prolongar muito mais toda essa baboseira mas também para não deixar de mencionar, fico muito feliz em poder ser quem eu sou. Livremente me expressar sem olhares tortos ou omições. E gostaria muito de acreditar que posso viver assim para sempre, e vou.
E com este post, sem pé nem cabeça, eu marco aqui metade desta fase, e reconheço a sorte que tenho por esta oportunidade e agradeço por cada momento e experiência extremamente positiva. Ela poderia ter sido bem diferente, a vida não é um conto de fadas (ou de mágia, hobbits, leões que falam, etc), mas ela depende somente de nós mesmos para que ela se torne especial.
De vez enquando noto a ausência de algumas coisas e percebo que nem tudo está em minhas mãos. E se nada posso fazer para mudar isso então talvez signifique que está na hora de seguir em frente e que se não foi, não era para ter sido (com excessão do meu iphone, Fer, rs).
Só mais uma coisa a dizer: se só com a metade cheguei até aqui não consigo nem imaginar o que acontecerá com o restante, afinal das contas o copo ainda está meio cheio.